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FERNANDA
GIANNASI
Área de atuação: Luta
contra o amianto
Lugar onde trabalha: Rede
Virtual Cidadã pelo Banimento do Amianto na América Latina e Associação
Brasileira de Expostos ao Amianto (Abrea)
Fonte indicadora: Greenpeace
Brasil
PROJETO QUE DESENVOLVE
Auditora
fiscal do Ministério do Trabalho desde 1983, Fernanda Giannasi
tornou-se símbolo da luta pelo banimento do amianto no país. O
mineral, ao ser utilizado na fabricação de telhas, caixas-d’água,
pastilhas de freio, entre outros produtos, pode provocar doenças
respiratórias e câncer. O Brasil segue na contramão, já que o
amianto foi proibido em mais de vinte países, entre eles Alemanha e
França.
Fernanda fundou a Rede Virtual Cidadã para o Banimento do Amianto na América
Latina e luta na Justiça ao lado de 300 trabalhadores vítimas da
fibra, que movem ações contra as empresas. Por desafiar interesses
econômicos, foi processada por crime de difamação pela Eternit,
segunda maior fabricante de produtos com amianto no país, sofreu pressão
do governo do Canadá, maior exportador do mundo, e já recebeu até
ameaças de morte. Nos Estados Unidos e na Europa, onde deu palestras,
seu trabalho é reconhecido e respeitado.
PANORAMA DA ÁREA
Caixas-d’água,
pastilhas de freio, discos e embreagens de automóveis, telhas,
isolantes térmicos e artefatos de uso infantil, como giz de cera e
alguns brinquedos. Em todos esses utensílios, o amianto está presente.
A fibra de origem mineral é conhecida há mais de 2000 anos, mas
somente em 1906, na Inglaterra, houve o primeiro relato científico
sobre seu efeito cancerígeno. No Brasil, apenas na década de 70 foram
divulgados casos de doenças provocadas por esse mineral.
Há dois tipos de amianto: o anfibólio e a crisotila. O primeiro já
foi banido da indústria mundial, incluindo também o Brasil. Mas a lei
federal de 1995 que proibiu o uso do anfibólio manteve o da crisotila.
Um dos motivos da resistência das fábricas é que o país exporta mais
de 30 milhões de dólares do material por ano para Tailândia, Indonésia,
Malásia, Índia, África, Colômbia etc.
As principais doenças associadas à exposição ao amianto são:
espessamento da pleura – membrana que recobre o pulmão; asbestose,
causada pela aspiração do asbesto (fibra do amianto), que se deposita
no pulmão; mesotelioma, que é o câncer na pleura; e câncer de pulmão.
Nenhuma delas tem cura, e o principal sintoma é falta de ar. “Todos
os tipos de amianto são cancerígenos”, ressalta Eduardo Algranti,
pneumologista da divisão de medicina da Fundacentro, ambulatório de
referência de doenças respiratórias causadas pelo trabalho.
Os primeiros sinais das doenças ligadas ao amianto muitas vezes demoram
anos para surgir. Um trabalhador pode ter sido exposto à fibra por um
ano e só apresentar o problema três décadas depois. Um levantamento
feito no início de 2001 pela Associação Brasileira de Expostos ao
Amianto (Abrea) com um grupo de 960 ex-trabalhadores de uma indústria
de fibrocimento registrou 222 casos de distúrbios respiratórios, 118
de placas pleurais, 98 de asbestose e quatro de câncer de pulmão.
PERFIL DA CANDIDATA
Neta
de italianos, Fernanda Giannasi, 43 anos, nasceu em Ribeirão Preto, São
Paulo, e acredita que herdou da avó materna, Élena, a determinação e
a persistência. “Ela era dura comigo, porque me achava forte”,
lembra. Filha de uma professora primária e do diretor da escola onde
estudava, procurava ser excelente aluna para não decepcionar o pai.
Depois de se formar em Engenharia Civil pelo Instituto Politécnico de
Ribeirão Preto, em 1981, mudou-se para São Paulo com o marido,
administrador de empresas. Conseguiu estágio em um laboratório de
material de construção do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Em novembro de 1983, já separada, foi aprovada em um concurso do Ministério
do Trabalho e assumiu o cargo de auditora fiscal na Delegacia Regional
do Trabalho no Estado de São Paulo. Sua função era supervisionar a
segurança das fábricas. Em 1985, ela e outros funcionários decidiram
investigar também doenças adquiridas no ambiente de trabalho. Foi
quando descobriram vários operários vítimas do amianto, com medo de
processar as empresas, entre elas a Brasilit e a Eternit, que dominam
mais de 50% do mercado brasileiro da fibra. Fundaram, então, o Grupo
Interinstitucional do Asbesto.
HISTÓRICO
DA OBRA
Entre 1986 e 1990, o grupo denunciou irregularidades
e conseguiu várias melhorias em nove empresas do Estado de São Paulo,
como uso adequado de máscaras; instalação de exaustores,
umidificadores e lavanderias, para que o pó impregnado nos uniformes não
fosse carregado para as casas; conscientização dos operários sobre os
males causados pela fibra. “Eles não tinham a menor idéia do efeito
cancerígeno do amianto e, na maior parte das empresas, trabalhavam em
situações muito precárias”, conta a auditora. Como não havia uma
lei que garantisse proteção ao trabalhador exposto a produtos cancerígenos,
o grupo elaborou um projeto de regulamentação para o uso do amianto,
instituído em maio de 1991.
Ao participar da Eco 92, Fernanda entrou em contato com o deputado
estadual Carlos Minc (PT), do Rio de Janeiro, e com representantes de vários
países que defendiam o banimento da fibra. O Grupo Interinstitucional
do Asbesto – que lutava pelo uso controlado do amianto – havia se
dispersado, e a engenheira decidira então analisar as novas propostas.
Um ano depois, convidada para participar do congresso Bastamianto, em
Milão, na Itália, ela sugeriu que o próximo encontro fosse em seu país.
Em 1994, realizou-se em São Paulo o Congresso Internacional do Amianto:
Uso Controlado ou Banimento?, ao qual compareceram representantes de
catorze países, entre eles Estados Unidos, Itália, França, Inglaterra
e Bélgica.
Da reunião, surgiu a Ban Asbestos Network, rede de informações que
divulga dados, estatísticas e denúncias no mundo todo. Naquele ano,
casada novamente e grávida, Fernanda foi transferida para Osasco (SP).
Na cidade, ela conheceu vários ex-funcionários da maior fábrica da
Eternit do país, fechada em 1993, que sofriam de doenças causadas pelo
amianto. Sugeriu que eles se unissem. O pequeno grupo passou, então, a
visitar ex-companheiros para revelar o problema. “Íamos até a velórios,
onde encontrávamos muitas outras vítimas”, conta a auditora. No
final de 1995, eles fundaram a Abrea, que hoje conta com 1000
associados, sendo que 300 deles estão movendo ações contra a Eternit.
Em 1998, a Eternit tentou processar Fernanda por crime de difamação,
mas a Justiça rejeitou a queixa-crime. “Vivi momentos muito tensos. Não
tive apoio do Ministério do Trabalho e comecei a receber telefonemas me
ameaçando de morte”, revela. Em 1999, o ministério a mandou de volta
para São Paulo, onde trabalha até hoje. No entanto, continua atuando
na Abrea, em Osasco: participa de assembléias, redige todo o material
e, se algum ex-funcionário adoentado quer entrar com uma ação,
fornece relatórios detalhados sobre as condições da fábrica no período
em que ele esteve trabalhando lá. Ela é convidada para dar palestras
no país e no exterior – já esteve na França, Inglaterra, Estados
Unidos, Canadá, Bélgica e Holanda. Desde 1996, coordena a Rede Virtual
Cidadã para o Banimento do Amianto na América Latina, repassando
informações e denúncias para o mundo.
IMPACTO
Nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato
Grosso do Sul e Rio Grande do Sul foram aprovadas leis que proíbem a
comercialização do amianto. Em São Paulo, o projeto de lei do
deputado Roberto Gouveia (PT) determina o fim gradual do uso da fibra até
2005. Apesar de o projeto existir há dez anos, só este ano Gouveia
conseguiu reunir provas suficientes para a aprovação. “Fernanda me
alimentou esse tempo todo com argumentos. Ela se arriscou, foi ameaçada,
mas teve convicção”, afirma. No Rio, o projeto de lei do deputado
Carlos Minc vai além do banimento e prevê indenização às vítimas.
Para ele, Fernanda é uma mulher de coragem: “Ela chamou a atenção
para o problema do amianto assim como Chico Mendes para a questão dos
seringais”.
EFICIÊNCIA E PARCERIAS
Em 1999, a engenheira recebeu o Prêmio
Internacional de Saúde Ocupacional Ambiental, da Associação Americana
de Saúde Pública, em Chicago, nos Estados Unidos. Fernanda é
assalariada e não recebe nenhuma contribuição financeira. Ela conta
principalmente com o apoio da Força Sindical, da Central Única dos
Trabalhadores e de vários sindicatos independentes, que imprimem o
material da Abrea, emprestam espaço e equipamentos para eventos etc.
PONTOS
POLÊMICOS
A maior mina brasileira, situada em Goiás, produz
200000 toneladas de amianto por ano, sendo 60% consumidas no país e o
restante exportado. De acordo com o governador de Goiás, Marconi
Perillo (PSDB), a fibra é uma matéria-prima de alto valor, que reduz
os custos da construção civil, envolve uma cadeia produtiva de mais de
200000 pessoas e, quando manuseada com segurança total, não provoca
danos à saúde. Assim, seu banimento implicaria desemprego e outros
problemas econômicos. O deputado Roberto Gouveia rebate com a afirmação
de que o amianto pode ser substituído por fibras sintéticas.
A Eternit pretende continuar usando o mineral enquanto a legislação
permitir. “Mas, por força das campanhas internacionais contrárias ao
amianto já instaladas no Brasil, o mercado busca alternativas e teremos
condições de fornecer produtos que não contenham a fibra”, afirma o
presidente Élio Martins. A Brasilit, que pertence ao grupo francês
Saint-Gobain e é líder no país na venda de produtos com fibrocimento,
se prepara para trocar o amianto por material sintético. “Até meados
do ano que vem, estaremos prontos para operar com PVA”, diz Carlos
William Ferreira, diretor da empresa. “Mas temos plena convicção de
que nossos operários trabalham com toda a segurança. A população
deve estar ciente também de que possuir uma caixa-d’água ou telhas
de amianto em casa não é prejudicial, porque não há risco de ser
inalado”, completa.
Fernando Vasconcelos, gerente da Secretaria de Qualidade Ambiental do
Ministério do Meio Ambiente, reitera que, em locais seguros, a
crisotila não faz mal à saúde: “As medidas adotadas hoje pela indústria
são rígidas”. O pneumologista Algranti acredita que nos últimos
anos os operários tomaram consciência e passaram a se proteger. “Mas
existem aqueles que estão expostos ao amianto sem ter noção, porque o
problema extrapola os limites das fábricas e da mina”, revela
Algranti. E exemplifica com o caso de um paciente que apresentou doença
pleural sem nunca haver se empregado na indústria do amianto, fato
pouco comum, já que a enfermidade é rara. “Ele trabalhava com
restauração de objetos antigos e usava massa plástica. Descobrimos
que na composição dessa massa havia amianto.”
IMPORTÂNCIA DA CANDIDATA
No Brasil, está em trâmites no Congresso Nacional
uma lei a favor do banimento da fibra. Para o deputado federal Fernando
Gabeira (PV), envolvido com o projeto, Fernanda Giannasi é a maior
especialista do país no assunto. “Ela vai além da parte técnica ao
se importar com o social, com as vítimas do amianto”, afirma. O
aposentado João Baptista Momi, 71 anos, trabalhou 32 anos na Eternit.
“Eu sentia orgulho da fábrica, que pagava bem”, lembra João, que
tem asbestose. “Mas a empresa nunca me alertou de que o pó era
maligno; nem máscara eu usava. Fui enganado”, desabafa ele, que
aguarda há seis anos a sentença do processo que moveu contra a Eternit.
COMENTÁRIO DA CANDIDATA
“Sou defensora do interesse público e trabalho
em prol da segurança e da saúde do operário, e não de interesses
privados ou de governantes. Abracei a causa das vítimas do amianto por
convicção e não porque era moda no mundo. Até 1993, eu acreditava
ser possível o uso seguro da fibra. Percebi, então, que não era factível
e iniciei uma ampla discussão com a sociedade pela sua substituição.
Hoje tenho certeza de que é uma luta justa e necessária.”
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