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ABREA - Associação
Brasileira dos Expostos ao Amianto |
Artigo publicado em março 2003/n º. 2 da
Revista ODE da Holanda
de autoria de Tijn Touber and Jurriaan Kamp
Fernanda Giannasi é a personificação da luta anti-amianto no
Brasil. Esta apaixonada brasileira descendente de italianos somente se
preocupa com uma coisa: o bem-estar dos trabalhadores que são forçados a
escolher entre o dinheiro e sua saúde.
Ignorando o sanduíche em frente dela, Fernanda Giannasi
pesquisa em seu computador. Os diversos arquivos de apresentações em Power
Point denunciam seus anos de experiência. As fotos falam por si mesmo:
trabalhadores do amianto cobertos de poeira, operadores de máquinas sem máscaras
e quase desnudos, tubulações com vazamentos, meninos brincando em minas
abandonadas e fábricas. Quando Giannasi começou sua investigação sobre as
medidas de segurança nas empresas de amianto, pela Divisão de Segurança e
Saúde do Trabalhador dezessete anos atrás, quase ninguém no Brasil
imaginava os perigos do amianto: Mesmo os grandes produtores brasileiros nunca
mantiveram quaisquer arquivos médicos. Oficialmente não havia doenças
relacionadas ao amianto. O problema todo era invisível.
Enquanto o amianto tem sido banido em muitos países, no Brasil
a fibra tóxica ainda está em uso, como também continua a ser minerada em
grande escala. A produção do amianto começou efetivamente sob o governo
militar na década de 70, quando já estava sendo banido no Ocidente. Com 200
mil toneladas ao ano, o Brasil é o quinto maior produtor do mundo. Mas,
diferentemente do Canadá, por exemplo, que exporta 98% do amianto produzido,
70% do amianto brasileiro é utilizado no mercado nacional. Destes 70%
destinados ao mercado nacional, 90% vão para a indústria da construção.
Quase metade da produção é controlada por 2 empresas, Saint-Gobain(francesa)
e Eternit(suíça), as quais enfrentariam processos se levassem as operações
brasileiras para casa.
Fernanda Giannasi: O grande crescimento deste setor foi nos
anos 70, quando houve construções em grande escala dos conjuntos
habitacionais para população de baixa renda, usando amianto sem proteção.
È absurdo, especialmente se você imaginar que este material é impróprio
para o clima quente e úmido de certas regiões brasileiras. Muito pior na
região Norte, onde há muita miséria. As fibras começam a se desintegrar
nestes materiais após 5 anos. Além disto, até 5 anos atrás no mínimo 90%
de todas as casas tinham caixas d´água de amianto nos altos dos telhados e
60% de todas as casas são ainda cobertas com telhas de amianto. O amianto é
também amplamente utilizado na indústria automotiva, para cobertura e
isolamento, para vasos e utensílios domésticos e mesmo em brinquedos para
crianças!.
Giannasi continua seu monólogo apaixonado: Pesquisas têm
demonstrado que há um extraordinário aumento de taxas de câncer em áreas
com alta exposição, tais como tubulações com vazamentos ou caixas d´água
danificadas. È um fato por demais conhecido que respirar fibras de
amianto pode causar doenças no pulmão e câncer. Já Carlos William
Ferreira, executivo senior da Brasilit, a principal empresa de amianto,
ainda diz que não há razão para alarme! . O fato de que a empresa tem sua
mina de amianto certificada ambientalmente(ISSO 14.000) desde 1.998 por uma
empresa norueguesa chamada DNV pareceria indicar que era no mínimo um pouco
alarmante. Uma considerável jogada, considerando que nenhuma outra mina no
mundo tem tal certificação.
Quando Giannasi encontrou seu primeiro caso de contaminação
por amianto, os trabalhadores ficaram relutantes de enfrentar seus patrões.
Eles estão apavorados de perder seus empregos. Somente quando as fábricas
fecharam que eles vieram até nós. Todos estavam muito doentes. Nunca ninguém
tinha dito a eles que amianto era perigoso. Se tivessem dito, de toda
forma eles falariam: É seguro porque o amianto é branco. Ela gira os olhos e
levanta seus punhos: Você pode acreditar nisto!. Hoje, em todos os lugares
que vai, Giannasi exige estritas medidas de segurança, incluindo máscaras
industriais, exaustores e instalações de controle ambiental e lavanderias
para prevenir os trabalhadores de carregarem as partículas de amianto para
casa. Se necessário, ela pessoalmente interdita uma operação. Ela de
maneira decidida aponta para
uma foto: Eu interditei aquela fábrica. Desnecessário dizer
que tudo isto não tem aumentado sua popularidade com a indústria do amianto.
Mas seu trabalho tem ganho aprovação internacional. Sua
grande dedicação e conhecimento construíram as bases de uma conferência
internacional sobre o amianto em 1994 em São Paulo. Um dos resultados foi a
criação da Rede Ban Asbestos, a qual pôs Giannasi em contato com ainda mais
trabalhadores, todos eles doentes. Nós costumávamos ir a funerais, onde
encontrávamos outras vítimas. Em 1995, para juntar forças nós fundamos a
ABREA, uma ONG que tem atualmente no mínimo 1.000 membros. 300 destas pessoas
já entraram com ações judiciais contra a empresa Eternit.
Eternit a processou por colocar a empresa em descrédito. Eu os
comparei à Máfia. A pressão cresceu, não somente do Brasil, mas também do
Canadá, o maior exportador de amianto do mundo. Eu recebi várias ameaças de
morte. Não houve jeito de livrarem-se dela e sua fotografia finalmente
foi capa da revista mais popular no Brasil chamada Época, a qual tem uma edição
de 500.000 cópias. A revista a comparou com a famosa ativista americana, cuja
vida transformou-se num grande filme de sucesso de Hollywood. Depois ela foi
ganhadora do Prêmio Internacional de Saúde Ocupacional e Ambiental pela
Associação Americana de Saúde Pública em Chicago.
Giannasi foi absolvida de todas as acusações por seus comentários
sobre a Máfia e com renovado vigor ela levou a cargo convencer os
trabalhadores a não cederem ao ultrajante suborno oferecido pela máfia do
amianto aos seus ex-empregados: Enormes pressões foram feitas para que
os trabalhadores assinassem contratos com o objetivo de refrear as ações
legais contra as empresas, em troca de valores entre 5.000 e 15.000
reais(2.000 a 5.500 Euros, convertidos) e assistência médica por toda a
vida. Eles estavam sendo usados como lobby para manter a indústria ativa.
Havia inclusive uma cláusula no contrato que, se a empresa fosse impedida de
produzir produtos à base de amianto, cessaria a indenização
financeira e a assistência médica!. Giannasi aponta os relatórios ao seu
redor. Apesar destas pessoas estarem terrivelmente doentes, muitos dos
sintomas só aparecem anos depois. No Brasil temos 2.500 casos de contaminação
por amianto. Com freqüência eles evoluem para formas raras, extremamente
agressivas e tumores incuráveis.
Suas tentativas de banir o amianto por lei federal fracassaram
em 1.993. Ela mudou a tática e começou a lutar, por outro lado, por
banimentos locais nas cidades e Estados. No momento, há 70 projetos de lei
pelo banimento do amianto sendo discutidos no Brasil. No que se refere
à Giannasi, alguém está sempre lutando contra ela nos tribunais em algum
lugar. Quando ela finalmente conseguiu obter o banimento do mineral perigoso
em 4 Estados, uma das empresas reclamou que estava sendo discriminada, já que
no resto do país o amianto ainda permanecia legal. A empresa alegou que teria
de demitir 400 empregados. O juiz aceitou o recurso e Giannasi teve de começar
tudo outra vez. As indústrias sempre conseguem dar um jeito de
encontrar uma escapatória. Seus crimes são sempre ignorados ou
minimizados. Saint-Gobain se esconde atrás do argumento de que eles não
estavam cientes dos perigos naquele tempo. Agora eles alegam que as fábricas
são totalmente seguras e que eles apenas vão parar com o amianto por falta
de demanda internacional.
Ela tem de partir: uma outra apresentação. Na medida em que
ajeita seus papéis ela conclui irritada. Este pessoal deveria ser julgado e
punido. É realmente muito sério. Deveria haver uma audiência justa, como os
tribunais de Nuremberg ou Haia com juízes escolhidos pelas Nações Unidos. E
assim ela se vai, com seu laptop e um monte de documentos enfiados sob seus
braços. Invencível, cheia de energia e determinada a fazer o possível em
seus esforços para proteger os trabalhadores brasileiros e seus concidadãos
contra pessoas que dizem que uma substância branca não pode ser perigosa.
