Polêmica sobre os riscos do amianto tem novo capítulo na Justiça
Agência Brasil
08/01/2007


7 de Janeiro de 2007 - 18h22

Marcos Chagas Repórter da Agência Brasil

Brasília - O debate sobre a proibição da exploração, industrialização e comércio do amianto tem uma nova etapa com conclusão prevista para 10 de fevereiro. Até lá, o ministro Agenor Álvares precisa justificar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) as razões que o levaram a assinar a portaria que aprova procedimentos e critérios de envio ao Sistema Único de Saúde (SUS) de listas de trabalhadores e ex-trabalhadores expostos ao mineral.

A legalidade da portaria do Ministério da Saúde é questionada por mandado de segurança de 19 empresas do setor, encabeçadas pela Eternit S/A, que conseguiram liminar do STJ em 12 de dezembro. A Portaria 1.851/2006 abrange as atividades de extração, industrialização, utilização, manipulação, comercialização, transporte e destinação final de resíduos. Inclui nestas lista os produtos e equipamentos que contenham amianto. A liminar de dezembro foi concedida pelo ministro relator João Otávio de Noronha.

Essa briga judicial não é de agora. Municípios e estados aprovaram legislações específicas proibindo desde a utilização em órgãos da administração direta e indireta de produtos que contenham amianto até a comercialização, o beneficiamento, a fabricação e a instalação de produtos ou materiais que contenham o mineral sob qualquer forma.

Em alguns casos, o setor de fibrocimento (material constituído por amianto e cimento) conseguiu reverter as legislações municipais e estaduais por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O principal argumento é que existe uma lei federal (Lei 9.055, de 1995) que disciplina a extração, a industrialização, a utilização, a comercialização e o transporte do amianto e dos produtos que o contenham.

As empresas reverteram as decisões dos governos estaduais do Mato Grosso do Sul e São Paulo. Em 2001, o governo do Mato Grosso do Sul proibiu a comercialização de produtos à base de amianto em seu território. O decreto foi considerado inconstitucional pelo STF em 8 de maio de 2003.

No caso do estado de São Paulo, o decreto assinado pelo então governador Geraldo Alckmin, em 25 de janeiro de 2001, proibia a importação, extração, beneficiamento, comercialização, fabricação e instalação de produtos ou materiais contendo qualquer tipo de amianto. A lei estadual foi revogada pela Corte Suprema em 8 de maio de 2003. Não houve recurso do governo estadual.

Apesar dessas decisões, em alguns municípios existem legislações específicas de restrição ao uso do amianto. Levantamento feito em 2004 pelo consultor do Ministério da Saúde Elio Lopes dos Santos cita como exemplos os municípios paulistas de Mogi Mirim, São Caetano do Sul, Osasco, Bauru, Ribeirão Preto, Campinas, São Paulo, Taboão da Serra, Barretos, Jundiaí, Amparo e Santa Bárbara D'Oeste.

O levantamento feito pelo consultor cita, ainda, o município de Recife (PE) entre os que restringiram o comércio e uso de materiais produzidos com amianto. Os estados do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul também têm legislações específicas sobre a questão.

7 de Janeiro de 2007 - 19h50

Amianto atende a necessidades do país, defende industrial

Marcos Chagas Repórter da Agência Brasil

Brasília - O presidente da Eternit, Hélio Martins, defende o aproveitamento do amianto. A empresa é líder no segmento de fibrocimento, composição de cimento e amianto usada em telhas, caixas d'água e outros itens de construção civil. Em entrevista à Agência Brasil, Martins contesta o número de processos atribuído à companhia e diz que material responde a necessidades do país. Afirma também que a jazida do mineral, em Minaçu (GO), suporta mais 50 anos de exploração.

Para garantir que confia no produto, declara: "Eu estou falando do meu sítio [a entrevista foi por telefone], e a caixa da água que os meus filhos bebem é de amianto".

Agência Brasil: A auditora Fernanda Giannasi, do Ministério do Trabalho, informou que existem 4 mil casos diagnosticados de trabalhadores e ex-trabalhadores da Eternit e da Brasilit com ações na Justiça por terem contraído a doença do amianto. O senhor confirma? Hélio Martins: Essas vítimas não existem. A doutora Fernanda tem duas funções, atua no Ministério do Trabalho e lidera uma ONG que milita na área [é a Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto, Abrea]. Sempre foi solicitado que se apresentassem relações dessas pessoas, os nomes nunca apareceram e nunca apareceram ações dessas pessoas contra as empresas. Existe uma ação civil pública em São Paulo sem nomes, proposta pela Abrea.

Abr: Então a Eternit não tem nenhuma ação de trabalhador ou ex-trabalhador por conta dos efeitos da exposição ao amianto? Martins: A Eternit tem ações contra ela de pessoas que já trabalharam na empresa, principalmente no período de 1940, 50 e 60, quando importávamos amianto anfibólio, não tinha o sistema de despoeiramento que a empresa tem hoje, que é um dos mais modernos do mundo. A empresa é modelo, tem o ISO-14000, tem OSO-8001 de saúde e segurança no trabalho. Isso são investimentos feitos ao longo dos últimos 30 anos. Em 66 anos de atividade no país, mais de 40 mil pessoas trabalharam conosco e temos entre 128 e 129 processos contra a companhia. Então, se falava em mil, depois 2.500 e, agora, se fala em um número novo, 4 mil, que eu nunca tinha ouvido.

Abr: Ela fala em 4 mil das duas empresas. Martins: Essas pessoas não existem. Há um exagero em relação a esta questão, o Brasil é muito diferente do que foi na Europa, durante o processo de recuperação com o Plano Marshall [após a Segunda Guerra Mundial]. Trabalhamos, no Brasil, abaixo de 0,10 fibras por centímetro cúbico, e a legislação brasileira fala em 2 fibras por centímetro cúbico. Nós recebemos em um ano e meio 11 mil pessoas, médicos, cientistas, políticos, estudantes, que já visitaram as cinco fábricas da Eternit e a mineradora [a Sama, mineradora que explora o amianto no município goiano de Minaçu]. A fábrica de Goiânia é de 1971 e não tem nenhum caso de disfunção respiratória registrado. Nós temos prontuários dos trabalhadores, por legislação temos que acompanhar a saúde delas por 30 anos e nós fazemos isso. Ela nunca importou amianto anfibólio, sempre trabalhou com o crisotila. Você sabe que há um confronto de tecnologias com forte interesse econômico envolvido. Nós queremos que os cientistas digam se é possível trabalhar ou não. Nesse sentido, a USP [Universidade de São Paulo] vai fazer uma pesquisa.

Abr: Como vai ser essa pesquisa? Martins: A USP deve coordenar uma pesquisa com duas universidades canadenses e universidades federais junto à população que utiliza os produtos (telhas e caixas d'água, por exemplo) para responder se existem doentes no Brasil por usá-los ou não. Deve começar em janeiro ou fevereiro, e acredito que até o final do ano vai dar essa resposta.

Abr: O Ministério da Saúde publicou uma portaria obrigando as empresas que utilizam o amianto a repassarem ao Sistema Único de Saúde listagem de funcionários expostos ao mineral, e vocês a questionaram na Justiça. Por quê? Martins: Acontece que na lei que regulamenta a atividade não se fala no canal de distribuição. Essas leis não consideram a revenda, trabalham com produto onde a fibra está presa numa matriz de cimento. Todas as medições na mina, nas fábricas e até nos revendedores mostram que as fibras em suspensão estão muito abaixo do que a lei permite. O amianto está no ar, em dois terços da crosta terrestre. Essas leis que tentam proibir o amianto são inconstitucionais. Quem entrou no Supremo Tribunal Federal contra as leis estaduais que proíbem o amianto foram os próprios trabalhadores.

Abr: Quanto a cadeia do amianto movimenta no Brasil? Martins: A Sama é a terceira maior mineradora do mundo. Ela produz 250 mil toneladas/ano para um volume mundial da ordem de 2,3 milhões de toneladas. Ela exporta mais de 60% do que produz, fornece para o mercado brasileiro. Das 12 empresas daqui, 11 trabalham com amianto crisotila. Para toda a cadeia produtiva, da mina ao produto aplicado, estimamos que existam 170 mil empregos diretos e indiretos, com faturamento de R$ 2 bilhões/ano. São números de 2005, e os de 2006 não estão fechados mas, sem dúvida, apresentou crescimento. É uma cadeia produtiva muito importante para a solução do déficit habitacional. Hoje se encontra no balcão uma telha de 1,22 metro quadrado por R$ 5 e R$ 6, é algo que, depois da lona preta, é o que a população carente pode comprar. Se essas telhas saem do mercado as opções vão de 20% a 80% mais caras.

Abr: Quais são os principais compradores do amianto crisotila no exterior? Martins - A exportação é de fibras de amianto. Temos algumas exportações para Angola, Portugal. Para Portugal exportamos painéis, divisórias para mezaninos sem amianto, porque aquele país não usa material com amianto. Mas todos os países mais expressivos em desenvolvimento, como China, Índia, Tailândia, Indonésia e México, e muitos outros, o utilizam.

Abr: O senhor desvincula a decisão dos países europeus de banir o amianto de questões ligadas à saúde? Martins: Acho que duas coisas levaram a União Européia a não utilizar mais o amianto: os problemas por ter utilizado o amianto anfibólio e o fato de o produto não atender mais às necessidades. O uso que se fez no processo de reconstrução da Europa foi algo inconcebível. No jateamento de paredes os registros mostram que havia mais de mil fibras por centímetro cúbico, quando nós trabalhamos com 0,10. E se 40 países baniram, já eram países que não utilizavam mais. Suas reservas se exauriram e eles não tinham mais interesse econômico no produto.

8 de Janeiro de 2007 - 00h08

Defensores e críticos do amianto se amparam em estudos científicos

Marcos Chagas Repórter da Agência Brasil

Brasília - Em sua longa discórdia, mineradora e empresas que produzem, exploram e comercializam o amianto crisotila, de um lado, e setores ligados à saúde pública no Brasil, do outro, têm procurado respaldo em documentos científicos que justifiquem seus pontos de vista. Contrapõem-se argumentos que garantem que o modelo brasileiro é exemplo para o mundo no controle de eventuais danos à saúde de seus trabalhadores e argumentos pelo banimento definitivo do uso do mineral em território brasileiro.

Relatório do Ministério da Saúde elaborado em 2004 pelo consultor Elio Lopes dos Santos sugere que a não-proibição em caráter definitivo da extração, produção e comércio do amianto crisotila pelo governo brasileiro decorre de "interesses econômicos de lobbies de países produtores e exportadores".

O consultor acrescentou que esses países têm que "ser atendidos a todo custo", uma vez que o Brasil é um dos maiores produtores de amianto crisotila do mundo e eles não tinham mais reservas do mineral. "Já comercialmente falidos, com suas reservas esgotadas, foram proibidos [da exploração de outros tipos de asbestos] e o único autorizado [crisotila], justamente aquele em produção no Brasil, foi autorizado, desde que de forma 'segura', por apresentar 'nocividade mais baixa'", ressaltou Elio Lopes dos Santos.

No relatório, ele contestou os argumentos de alta segurança e baixa nocividade do amianto crisotílico brasileiro. De acordo com o texto, isso não se sustenta cientificamente diante da "comprovação nacional e internacional da nocividade causada pelo asbesto do tipo crisotila, através de inúmeras publicações especializadas e trabalhos apresentados em contressos e encontros".

Neste sentido, Santos acrescentou que por conta destas questões e pelo reconhecimento do próprio Ministério da Saúde de doenças como o câncer, asbestose e mesotelioma causadas pelo amianto, se faz urgente a revisão da legislação em vigor.

Essa não é a opinião da presidente do Instituto Brasileiro de Crisotila, Marina Júlia de Aquino. Segundo ela, estudos recentes concluídos pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo mostram que produtos manufaturados que usam amianto não comprometem a saúde do brasileiro.

A pesquisa, segundo ela, envolveu o estudo de telhas com tempo de uso de até 60 anos. "Eles mostraram que o produto acabado não libera fibra e, nos casos mais longos, libera fibras, que não são respiráveis, num nível muito baixo". Aquino afirmou, ainda, que o Brasil é referência no uso controlado e responsável do amianto crisotila: "Os controles que se fazem tanto da qualidade do ar, equipamentos de proteção coletiva, como monitoramento da saúde do trabalhador, garante a saúde e segurança destas pessoas".

A presidente do Instituto Brasileiro de Crisotila argumentou, ainda, que estudo médico realizado na Bahia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) avaliou mais de 4 mil trabalhadores de uma antiga mineradora. "Eles avaliaram radiografias e laudos médicos de ex-trabalhadores, inclusive alguns já falecidos, e o estudo mostrou que o índice da doença encontrado nesses trabalhadores, numa época em que não se conheciam os malefícios do amianto e em que os métodos de controle não eram adequados, estavam abaixo do que era a expectativa dos cientistas", disse.

Marina Júlia de Aquino afirmou que, desde 1980, nenhum trabalhador que atuou no segmento do fibrocimento (material produzido com cimento e amianto) apresentou qualquer traço de contaminação. Por lei, as pessoas que trabalham ou trabalharam nesse segmento têm que ter acompanhamento médico por 30 anos.

7 de Janeiro de 2007 - 18h21

Construção civil consome quase toda a produção de amianto do país

Marcos Chagas Repórter da Agência Brasil

Brasília - O amianto ou asbesto é uma fibra mineral natural extraída de um tipo de rocha conhecida como anfibólio ou serpentina. Segundo relatório do Ministério da Saúde elaborado em 2004 pelo consultor Elio Lopes dos Santos, a construção civil é responsável por 91% do uso do material no Brasil, em telhas e caixas d'água, painéis, tubulações conexões e pisos vinílicos.

A indústria automobilística é responsável pelo emprego de cerca de 6% do amianto, em lonas de freio e revestimento de embreagem. Os 3% restantes vão para a confecção de roupas especiais anti-chama, mantas e encerados plásticos, tintas e massas especiais.

Trata-se de um setor que, em toda a sua cadeia produtiva, tem um faturamento anual de US$ 2 bilhões, segundo levantamento do próprio segmento de fibrocimento. O valor se refere ao faturado em 2005 e cresceu em 2006, segundo o presidente de uma das maiores empresas da área, a Eternit S/A, Hélio Martins.

Em Minaçu (GO) está a única fábrica de extração de amianto. Segundo a auditora fiscal Fernanda Giannasi, fundadora da Organização Não-Governamental Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), Goiás tem 40% de sua arrecadação bruta proveniente da indústria desse produto. O Superintendente de Geologia e Mineração do estado, Luis Fernando Magalhães, não soube precisar o peso da extração do amianto no faturamento goiano. Ressaltou, no entanto, que as commodities minerais do estado ultrapassam US$ 1 bilhão, e que o amianto está entre os três principais produtos dessa commodity. A arrecadação com a extração mineral, em Goiás, só é superada pela agroindústria, acrescentou.

Existem três tipos mais comuns de amianto: a crisotila (asbesto branco), o amosita (asbesto marrom) e a crocidolita (asbesto azul). No Brasil, produz-se a crisotila, que é composta por silicatos hidratados de magnésio. O asbesto só é identificado em microscópio. O cristal do asbesto, de acordo com Elio Lopes, apresenta-se na forma de fibras longas, nos tipos serpentina e anfibólio. O grupo das serpentinas é representado pela crisotila. Esse tipo de amianto representa quase a totalidade da produção mundial.

Por ser durável, resistente ao fogo e à corrosão, além de bom isolante térmico e elétrico, o asbesto é utilizado em mais de 3 mil diferentes tipos de produtos comerciais.

Empresas sabem que proibição do amianto é questão de tempo, afirma auditora
Agência Brasil
08/01/2007

7 de Janeiro de 2007 - 21h04

Marcos Chagas Repórter da Agência Brasil

Brasília - As empresas brasileiras sabem que a proibição do uso do amianto é uma tendência mundial e buscam apenas prolongar os lucros sobre o investimento já feito. A afirmação é da auditora fiscal Fernanda Giannasi, do Ministério do Trabalho e Emprego, em entrevista à Agência Brasil.

Fundadora da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), ela diz que no caso dos trabalhadores do setor que são fumantes a chance de contrair doenças como câncer de pulmão ou asbestose aumenta em 57 vezes se comparados aos demais.

Agência Brasil: A senhora tem na proibição do amianto uma bandeira. Que males ele causa? Fernanda Giannasi: O amianto é um agente reconhecidamente cancerígeno. Isso já é definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A poeira proveniente desse mineral, quando inalada e se alojando no pulmão, pode levar a um processo de fibrose pulmonar e câncer de pulmão. Também pode ocorrer o mesotelioma de pleura, um tumor muito agressivo que acomete aqueles que tiveram exposição não necessariamente longa nem intensa. Não há um limite abaixo do qual possa se garantir que as pessoas expostas não vão adquirir algum tipo de adoecimento.

Abr: Poderíamos comparar a agressividade do amianto contra o pulmão de uma pessoa, por exemplo, ao uso do cigarro? Giannasi: Ambos são agentes patogênicos e, juntos, tem um efeito potencializado. Quem fuma e se expõe ao amianto pode ter o risco de câncer aumentado em 57 vezes em relação àquele que não faz nenhuma das coisas. Comparando à quantidade de fumantes não podemos dizer que o número de doentes no Brasil é o mesmo. Mas até aqueles que não têm contato direto podem vir a ter as doenças do amianto, mal comparando com o fumante passivo. De uma certa maneira, as pessoas que tem o hábito de fumar sabem dos riscos e optam por conviver com o risco. Já em relação ao amianto não. Isso é imposto no ambiente de trabalho ou ao consumidor, que nem sequer sabe dos possíveis danos.

Abr: Quantos brasileiros estão expostos à possibilidade de se contaminar? Giannasi: A indústria, em suas campanhas publicitárias, diz que há 200 mil empregos gerados pela cadeia produtiva do amianto. Se os multiplicarmos por cinco membros da família, podemos dizer que há 1 milhão de pessoas exposto ao amianto por conta da exposição relacionada ao trabalho. E há também uma exposição indireta, aquela do consumidor de produtos à base de amianto e, neste caso, não temos hoje como dimensionar, até mesmo por conta do uso intensivo do amianto que se deu no Brasil a partir da década de 70, quando 90% das caixas d'água das residências eram fabricadas com amianto e 70% das habitações foram cobertas com telhas de fibra cimento ou cimento amianto. Então, podemos imaginar que a população exposta é algo de muitos milhões de pessoas.

Abr: A polêmica de governo e organizações não-governamentais com empresas de extração de amianto e revendedoras de produtos manufaturados que levam o mineral vem de longa data... Giannasi: É verdade. Aqui no Brasil estamos, pelo menos há 20 anos, numa luta para a redução gradual até a proibição total do uso do amianto. É uma luta muito difícil porque há muitos interesses em jogo e o Brasil é um dos maiores produtores de amianto do mundo. A questão que está prevalecendo ainda no debate é a econômica. O estado de Goiás, por exemplo, é um estado que depende economicamente dessa exploração mineral.

Abr: Uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em caráter liminar, foi favorável às indústrias contra decisão do Ministério da Saúde de exigir o repasse ao Sistema Único de Saúde (SUS) a listagem de trabalhadores e outros que já foram expostos ao amianto. Como a senhora avalia essa decisão? Giannasi: Na verdade, há precedentes. O próprio Supremo Tribunal Federal revogou a lei de banimento [do uso do mineral] nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, há tentativas de se derrubar leis que baniram o amianto em outros estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Quer dizer, o Judiciário, além de não acompanhar devidamente o debate, não promove a justiça ambiental. Essas leis estão sendo questionadas com pareceres desfavoráveis à população, aos que lutam pela vida e pela saúde pública. Nós tivemos agora esta decisão, mesmo em caráter liminar, que suspende a eficácia da portaria que dá conhecimento público sobre os agravos promovidos pelo amianto, quer saber onde estão os doentes e como estão sendo tratados. Com isso, o debate no Brasil fica com a perna quebrada. Porque, toda vez que nós estamos falando da necessidade da proibição, alguém diz: "mas onde estão os doentes?" Aguardamos mais de dez anos por essa portaria do ministério.

Abr: Quantos processos correm na Justiça sobre a questão? Giannasi: Nós temos conhecimento de 4 mil vítimas do amianto só em duas grandes empresas: a Brasilit e a Eternit. São casos já diagnosticados e que estão na Justiça de uma alguma maneira. Infelizmente o nosso Poder Judiciário, com sua morosidade costumeira, faz com que a vítima morra, porque são decisões que estão levando mais de dez anos. Em geral, os prognósticos das doenças por contaminação de amianto são ruins, as pessoas morrem no máximo três anos após o diagnóstico. Também são ações que não indenizam adequadamente as vítimas para que tenham acesso a um bom tratamento e minimizem o sofrimento, já que elas não têm cura. Até isso o Judiciário tem negado.

Abr: As indústrias que trabalham com amianto no país alegam que o Brasil tem hoje o sistema mais avançado de controle sobre a possibilidade de contaminação. Isso procede? Giannasi: Vou falar pela minha experiência como auditora fiscal do Ministério do Trabalho há 24 anos. Também gerencio o Projeto do Amianto no estado de São Paulo. Só para termos uma idéia: de 216 empresas que declararam utilizar amianto em nosso país, 180 estão no estado. Há algumas poucas indústrias que investiram e que puseram sistemas de exaustão, mas isso não garante que os trabalhadores não venham a adoecer. Primeiro, porque não há limite seguro para o ambiente. Segundo, são doenças de grande latência: numa linguagem popular, ficam incubadas por 30, 40 até 50 anos. Então essas medidas que as empresas adotaram, principalmente após as nossas fiscalizações nos anos 80 e 90, só vamos saber se realmente têm alguma eficiência daqui a 20 ou 30 anos. As empresas sabem que em todo o mundo o amianto está sendo banido. Já são 45 países que proibiram. A indústria brasileira sabe que é uma questão de tempo, está tentando ganhar um pouquinho mais sobre os investimentos realizados.

Abr: Quais são os primeiros sintomas das doenças causadas pelo amianto? Giannasi: Em geral, no caso da asbestose, que é uma doença pulmonar, como a silicose, fazendo um paralelo, é a falta de ar. O trabalhador começa a sentir suas forças minimizadas. Em geral os sintomas são tosse, falta de ar, cansaço excessivo e perda de peso. Já para os casos malignos, em geral o primeiro sintoma é o derrame pleural. Quando a pessoa dá entrada no hospital com derrame pleural, a primeira pesquisa que se faz é a causa do derrame, se há um tumor. Sendo maligno, vão constatar se é um câncer de pulmão que causou aquele tipo de doença.

Abr: Que conselho a senhora daria às pessoas indiretamente afetadas? Giannasi: Em primeiro lugar, aqueles que já tem isso instalado como um telhado sem qualquer forro ou proteção, evitar varrê-lo. Procurar instalar um forro, alguma proteção que evite que aquele farelo caia das telhas, principalmente com a umidade e o bolor. O mesmo cuidado com a caixa d'água. Se ela estiver muito danificada procurar substituí-la; evitar usar escova de aço na limpeza e, principalmente produtos agressivos, como a água sanitária. Deve-se tampar a caixa d'água para evitar que ela se suje muito. O ideal, com o tempo, é substituí-la. Nós estamos, com a prefeitura de São Paulo, fazendo uma campanha de esclarecimento junto à população. Essa campanha, Amianto Mata, está no site da Abrea.

Abr: Muita gente, principalmente no interior, quando derruba alguma construção, aproveita o entulho para tapar buracos de estradas, utilizar no aterramento de outras construções. Outros jogam em qualquer lugar. Tendo pedaços de telhas de amianto, esses entulhos trazem algum risco? Giannasi: Quando mexemos com esse material, especialmente a seco, geramos poeira. Nela temos as fibras cancerígenas, que no caso mais grave são tão pequenas que não enxergamos. O Ministério do Meio Ambiente, por meio do Conselho Nacional de Meio Ambiente [Conama], já baixou uma resolução, a de número 348, que classifica esse resíduo como perigoso e determina que não seja reutilizado. Espero que a Justiça não cometa a injustiça de revogá-la.

7 de Janeiro de 2007 - 17h39

Ex-líder de mercado substituiu amianto por material sintético

Marcos Chagas Repórter da Agência Brasil

Brasília - A polêmica em torno da exploração do amianto crisotila e do seu uso em produtos manufaturados como telhas e caixas d'água se estende aos empresários do setor. O Brasil tem 12 empresas e 20 fábricas que trabalham com fibrocimento (combinação de cimento e amianto). Uma delas, a Brasilit - que já foi a líder do mercado -, deixou de utilizar, no fim da década de 90, o amianto crisotila em sua linha de produção.

"A Brasilit deixou de trabalhar com o amianto na medida em que a comunidade científica internacional, que já vinha estudando o mineral havia vários anos, chegou a conclusão que ele, em todas as suas formas inclusive o crisotila, é cancerígeno", argumentou o diretor-geral da empresa, Roberto Correa Neto, em entrevista à Agência Brasil.

A empresa optou pela troca do amianto pelo fio sintético. Esta mudança obrigou a Brasilit a investir R$ 120 milhões para adequar seus equipamentos para a produção de fio sintético. O diretor-geral da empresa afirmou que a decisão não teve caráter comercial.

Correa Neto acrescentou que mesmo perdendo a liderança do setor a empresa fez a opção em investir na saúde não dos trabalhadores, seus e de outras etapas da cadeia produtiva. "Por que pensar que só aquele que trabalha na extração ou na industrialização do amianto está exposto ao risco? Aquelas outras pessoas que trabalham cortando, serrando, fixando peças que contêm o amianto também estão - logicamente que numa quantidade menor - expostos ao efeito maléfico do amianto".

A Brasilit tem, hoje, um faturamento anual de R$ 200 milhões e, segundo o diretor da empresa, voltou a crescer, depois de cinco anos de retração. Ele negou que a decisão da Brasilit de substituir o amianto pela fibra sintética fosse uma estratégia para expandir a exportação ao mercado europeu, que baniu o uso do amianto.

De acordo com ele, neste caso a produção brasileira não se enquadra muito aos sistemas construtivos daquele continente. "Na Europa, o produto fibrocimento para coberturas já não é muito utilizado". Entretanto, ele afirmou que a Brasilit tem recuperado espaço no mercado exportador junto a outros países que também proibiram a utilização de qualquer tipo de amianto.

Por outro lado, o presidente da Eternit - atual líder do segmento -, Hélio Martins, defende que "o amianto é um produto fantástico para a necessidade que o Brasil tem de construção de baixo custo". Ele afirma que que o Brasil tem uma jazida "de excelente qualidade" de amianto crisotila puro (fica em Minaçu, Goiás), e que ela suporta mais 50 anos de exploração.