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O ruído

Eliane Brum

Aqui o chamaremos de T.

Na primeira vez que o vi, foram seus olhos que me capturaram. Eram olhos de quem descobrira algo que lhe custava muito acreditar. Então ficava com aquele olhar de quem havia acabado de enxergar, mas ainda não tinha processado. Um olhar para sempre surpreendido, e ao mesmo tempo descrente, esperando a qualquer momento que alguém lhe garantisse que era tudo um engano, restituísse a sua fé e o seu mundo voltasse a girar no sentido certo. “Eles sabiam, o tempo todo eles sabiam que estavam nos matando. E continuaram a nos matar”, dizia. E não olhava para mim, mas para esse lugar entre o dentro e o fora, onde parecia estar preso.

Eu estava na sua casa, na Grande São Paulo, e depois dessa frase ele se calou. Seu silêncio era como um mormaço, mas não era um dia quente. Era só o seu silêncio que fazia calor. Primeiro eu o escutei bem baixinho. O ruído já estava lá, mas como o zunido de um pernilongo que a gente não percebe logo no princípio, eu tinha estado surda para ele. Procurei a causa ao meu redor, longe dos olhos violentados dele. O ruído aumentou, e agora eu já não sabia como tinha sido possível não escutá-lo antes. Meus ouvidos me levaram ao peito dele, coberto por uma camisa tão bem passada que ainda carregava os vincos.

Por um momento me distraí com a camisa, que me enternecia. Eu já tinha visto aquela camisa em outros corpos. Eram as camisas dos pobres, dos trabalhadores pobres, e cada uma delas continha todo um esforço, uma dimensão da vida inteira. O corte era ruim, mas o tecido era de qualidade, apesar da estamparia antiquada. Havia nela uma vontade de missa. A camisa já tinha sido muito usada, mas estava limpa e fora passada com esmero por uma esposa que amava. Para que seu homem se apresentasse bem diante da repórter, para que parecesse respeitável. E, mais do que tudo, para que parecesse o que ele era, um trabalhador “de carteira assinada”, a vida inteira numa mesma firma.

A sombra dos pobres, a de serem apontados como vagabundos, também era contada por aquela camisa. Sempre humilhados pela polícia, tendo que provar a todo momento que não roubaram, não mataram, não dormiram durante o dia, não procrastinaram, não eram os errados na hora errada. O esforço de provar a inocência dia após dia, na ordem acima da ordem. Mais abaixo essa história seria contada pelos sapatos de casamento. Preto, o bico afunilando na ponta, desajeitados naqueles pés habituados aos calçados de solado grosso do chão de fábrica. Mas o adequado para a ocasião, teria garantido a esposa. Uma jornalista era quase uma autoridade, era bem parecida com uma doutora e, tão logo ele abriu a porta, antes de os olhos voltarem para aquele lugar de onde só saíam por um susto, para retornar em seguida, ele havia me estendido a carteira de trabalho. A minha carteira de trabalho poucas vezes saiu da gaveta, jamais me deu qualquer orgulho. Mas a dele, a do trabalhador pobre, era a prova, o escudo que o defendia numa sociedade em que já nascera sob o signo da suspeição.

Naquele momento ainda estávamos em pé. E eu, constrangida, sempre constrangida por aquele gesto, barrei a carteira com um movimento suave da mão. Não precisa me mostrar, eu disse. Eu acredito no senhor. E ele, visivelmente frustrado, me fez sentar num sofá de dois lugares enquanto puxava para si uma cadeira com assento de palha. Pedi para trocarmos de lugar, explicando que para escrever eu preferia ficar mais ereta. Ele não entendeu, mas concordou. Depositou então a carteira de trabalho na mesinha entre nós, perto de um vaso com rosas de plástico, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e o porta-retrato onde uma família sorridente posava diante de um daqueles bolos de casamento com grandes flores de glacê cor-de-rosa (margaridas, talvez?) e dois bonequinhos, o noivo e a noiva. Pousou a carteira de trabalho com cuidado, como se ela pudesse se ferir nas suas mãos embrutecidas pelas máquinas. E ali ela ficou, como um monumento que o protegia também de mim.

Mas me distraí. Eu estava buscando o ruído que me levou aos botões brancos e pequenos da camisa. Por trás deles, o peito se movia com uma lentidão penosa. E agora o som era quase um rugido. Como eu não percebera antes? Daquele momento em diante eu estaria para sempre diante dele, e estive algumas vezes, ouvindo o seu peito baixar e subir, como se o pulmão quisesse abarcar todo o ar a cada inspiração e  fracassasse em todas elas. Como um  peixe, pensei. Como um peixe fora d’água, tentando respirar sem conseguir. Um  peixe que vai morrer no minuto seguinte.  E sabe que vai morrer. Aquele olhar fixado era o mesmo olhar do peixe atirado à margem do rio, jogado de súbito para fora do mundo que ele conhecia.

De repente, o ruído que eu demorei a escutar tomava conta do ambiente e me parecia que suplantaria a sua voz quando ele voltasse a falar. Logo me soou insuportável e apenas por um segundo eu procurei um botão qualquer onde eu pudesse desligá-lo, como um daqueles ventiladores de teto de filme antigo de tribunal. Soube que nunca me livraria desse som, como jamais me libertaria daquele olhar. E agora ele me encarava, saído do transe. “Você está ouvindo?” Como ele poderia saber, me envergonhei. “Eu ouvi pela primeira vez numa noite em que não pude dançar com a minha mulher. Era um baile e todo mundo sabia que eu dançava bem. Eu me preparei para fazer o meu show, mas depois de umas voltas tive de parar. Não tinha mais fôlego.”

Eu o escutava, e escutava também o som quebrado do seu peito. Quis fugir dali, mas me obriguei a ficar sentada. Ele não parecia perceber o meu desconforto. T. queria contar, e eu deveria querer escutar. Mas eu só queria escapar daquele ruído que começava a me asfixiar também. “Era um bolero, Solamente una vez, conhece?” E cantarolou baixinho, esquecido de mim. “Solamente una vez amé en la vida. Solamente una vez  y nada más....” Esgotado, fez uma pausa antes de mais uma vez voltar ao salão de baile. “Sentado na mesa eu já não ouvia mais esses versos. Eu só escutava a coisa dentro de mim, a coisa que me roubava o ar.” Coisa, eu disse, suavemente interrogativa, como uma psicanalista pontuando um discurso na assepsia de um consultório.

“A coisa, você sabe, o amianto”, e voltou a me olhar. Acariciou o peito com a mão grande, um dedo médio torto por algum trauma. Um acidente de trabalho, talvez, anotei no meu bloquinho para perguntar mais tarde. “Está dentro de mim. Eu vou morrer e vai continuar dentro de mim.” E pareceu de novo se perder.

A mulher dele surgiu com o café numa bandeja, um prato decorado com bolachas recheadas. Para adoçar a vida, ela disse. Eu sorri, agradecida. E só naquele momento me deu vontade de chorar. Não pelo homem horrorizado diante de mim, mas pelas xícaras com pequenas flores que me lembravam a cozinha da minha avó. Pelas bolachas, que também na minha infância eram “para as visitas”. Pelo cabelo que eu adivinhei ter sido arrumado para me causar boa impressão. Ela então autorizou-se a sentar ao lado dele no sofá. Quase na ponta, incerta se deveria estar ali, mas arriscando.

T. não pareceu notá-la ao seu lado. Seguiu falando, como se falasse não para mim, mas para alguém que só existia dentro dele. “Quando a fábrica se instalou aqui, todos queriam um emprego. Era grande e a gente achava bonita. Era o progresso chegando. E a gente queria estar nele. Eu era jovem, minha família tinha vindo da roça pra uma vida melhor na cidade, e eu achava que podia progredir junto com a firma se fizesse tudo certo. Sabe, crescer com a empresa, era o que a gente pensava naquele tempo. E acho que progredi.” Mostrou a casa num gesto amplo, em que precisou das duas mãos. E a casa simples, mas bem construída, com paredes de alvenaria, pareceu ficar maior quando a vi pelos olhos dele. Hesitante na primeira frase, a mulher completou. “A gente queria casar, sabe, mas meu pai só aceitava se ele tivesse um emprego bom. Então a fábrica era toda a nossa esperança.”

Ela agora estava confiante, as costas afundadas no estofado de um tecido florido que lembrava veludo, mas o corpo esticado para frente, as mãos torcendo-se sobre o vestido de pequenas flores azuis. Esta era uma mulher que gostava de flores, pensei, mas não havia flores vivas naquela casa. “O pai dela queria alguém mais bem colocado na vida, era um homem rígido, dos antigamente. Queria que ela se casasse com um militar.” Fez um pequeno intervalo em busca de ar. “Mas ela tinha dançado comigo num baile e nunca mais pôde olhar para outro.”

Agora ele ria, sedutor, o olhar suavizado, e eu pude vislumbrar o homem que ele havia sido. “Sabe, ele dançava bem, mesmo”, ela continuou, animada. “Todas as minhas amigas queriam dançar com ele.” Ruborizou um pouco, as bochechas ainda virgens depois de todos esses anos. “Eu também queria casar com um militar, por causa das espadas, sabe. Não é do seu tempo, a senhora é ainda muito jovem”, e sorriu, me espiando para constatar se o elogio tinha me deixado contente. Eu fiz um sinal de “não sou tão jovem assim” com as mãos, acompanhado de um meio sorriso. Ela então continuou, satisfeita. “Mas quando um militar casava os outros faziam uma fila e levantavam as espadas, os noivos passavam por baixo. Era o casamento mais bonito, sabe, nós todas queríamos.” E o que aconteceu, perguntei. “Acho que me apaixonei porque ele era o melhor bailador.” E se sacudiu num riso encabulado.

Eu nunca ouvira essa palavra, bailador, e a sublinhei no meu bloquinho para lembrar-me de não esquecê-la quando fosse escrever a reportagem. Mas ela já seguia, falava bem mais rápido do que ele, engolindo algumas sílabas na ansiedade de não ser interrompida. “As outras me invejavam por eu dançar a noite toda com ele. E ele era um pouco bonito, tinha esses olhos, sabe, mas sem as rugas. E era cheio de lábia, ah, como era.” Eu deixei de escutá-la por um instante, tentando enxergar o que ela vira nos olhos dele no passado. Mas não consegui ultrapassar a escuridão dos olhos do presente. E deixei cair a caneta no chão, uma coisa bem minha quando me atrapalho. Ela não percebeu, continuava falando. “Eu era boba naquela época, mas tive sorte. Ele era muito trabalhador e fomos felizes, sabe.” Ela era do tipo que falava “sabe”, a bengala da língua a sustentar seu esforço. E ela se esforçava muito. “Até a gente descobrir, pelo menos.” E baixou a voz e os olhos.  E o tempo dos sorrisos terminou.

Eu esperei. O peito dele subindo e descendo como um carro velho numa ladeira. E o ruído. Tentei imaginar como aquela mulher suportava passar a noite ouvindo aquele som no peito do homem que amava, querendo desligar o som, mas sabendo que o som só cessaria com a morte. Que aquele ruído  era o melhor som que teria para sempre e  o sempre ficava mais curto a cada dia.  Olhei para ela, num sobressalto, e acreditei que ela tivesse escutado o meu pensamento, porque se afundou no sofá e pareceu querer entrar nele.

Me senti dominada por aquela atmosfera, engolfada naquele mormaço que me paralisava. Contrariando minhas crenças de que é preciso ser capaz de suportar o silêncio para escutar um outro, fiz uma pergunta atabalhoada, num tom mais alto do que eu gostaria. Parecia tão jornalista agora. Direta, objetiva. Quando o senhor descobriu que o amianto estava lhe matando? Ele se assustou, como se demorasse a registrar a troca de ritmo. “Quando?” O quê, quem, quando, onde, como, por quê, as seis perguntas que um estudante de jornalismo aprende na faculdade que devem ser respondidas logo no início de uma reportagem. Como se fosse possível respondê-las num punhado de frases, como se elas contassem algo do essencial. O essencial era o ruído, e ele não virava palavra.

“Os primeiros começaram a ficar doentes, mas a gente não sabia que uma coisa tava ligada na outra. Não é como aquele vírus, o ebola. É lento, a gente vai perdendo o fôlego, vai ficando cansado, até que a gente nem consegue mais ir na padaria comprar o pão. Ou dançar.” T. falava como um autômato, e eu sabia que ele se esforçava para responder, mas não estava lá. “Você tem que entender”, e agora ele voltava a me olhar, mas ainda parecia que não me enxergava, “que a fábrica era a nossa mãe, era assim que a gente via ela. Era como uma grande família. Eles diziam isso pra gente, e a gente achava que era assim mesmo. Trabalhar na fábrica era bem visto na cidade, a gente se orgulhava. Eu carregava a fábrica no peito, entende?” E fez uma pausa para recuperar  o ar. Será que ele percebia que era agora que ele de fato carregava a fábrica no peito? Ele percebia, eu soube logo em seguida.  “A gente se orgulhava mesmo, e eu não posso mentir, eu gostava de trabalhar lá. Toda a minha vida foi lá, criei meus filhos  lá, me sentia realizado de levar meus meninos na fábrica e dizer que trabalhava lá. Era um trabalho de homem. Como eu ia acreditar que carregava a fábrica no peito, sim, mas desse outro jeito?” E voltou ao olhar de limbo.

Eu me enganara. T. não estava inteiramente lá, mas lá e aqui. Ele ainda contava uma história, mesmo sabendo que a história nunca poderia ser contada em sua inteireza. Era um pouco como respirar. O ar se tornava cada vez mais difícil de alcançar, mas ele ainda conseguia capturar o suficiente para continuar vivo. E, quando ele parava de falar, não era apenas porque voltava ao horror, mas porque ficava sem fôlego. T. estava exausto. Ele havia sido traído pelo século 20. A chaminé da fábrica era o falo da sua época.

Diante de mim, o operário prostrado era o da modernidade decaída. As ilusões de progresso e potência desapareceram junto com o ar. Seu corpo era um planeta corroído. Ele alcançava o século 21 com a força de uma literalidade. Mas era ele o primeiro a pagar o preço, começando por descobrir que construíra uma vida sobre fumaça. Fumaça, não, pó. O pó do amianto. E agora a verdade o condenava. Não era apenas a sua existência concreta que ele perdia, mas tudo o que ele acreditava ser e o que acreditava ter vivido. A fábrica era uma entre dezenas que as multinacionais do amianto espalharam pelo mundo, e também no Brasil. A fábrica-família, que cuidava dele e dos seus, era uma construção simbólica. A fábrica, a engrenagem real e monstruosa, não via nele um filho. Se havia uma mãe, ela era uma Medeia. Os donos da fábrica, aqueles senhores tão longe, com nomes estrangeiros, viam nele e em homens como ele apenas ossos e músculos. Era literalmente com a sua carne que alimentaram uma das indústrias mais bem sucedidas do século 20. Quando instalaram a fábrica na cidade, os poderosos imperadores do asbesto já sabiam que, quando aqueles homens cruzavam a porta, empunhando orgulhosos a sua carteira de trabalho, estavam quase certamente condenados a morrer por asfixia. Ou pelo agressivo e sempre fatal câncer do amianto, o mesotelioma. Entrar na fábrica era dar o primeiro passo no corredor da morte. E os donos da fábrica sabiam.

“Eu demorei muito a acreditar que eles sabiam. Nós todos demoramos. Mesmo doentes, mesmo sem ar, a gente ainda levou tempo pra acreditar”, ele voltou a falar, e a voz era tão baixa que eu tive de me curvar para a frente para ouvir. Quando o senhor acreditou?, perguntei baixinho. Em vez de responder, ele colocou três colheres de açúcar numa xícara, sem nenhuma pressa, como se estivesse procurando a resposta em algum arquivo interno. Despejou café por cima e depois mexeu com uma colherinha. Levou a xícara até a boca, com uma mão trêmula. E tomou um gole, bem lentamente, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Só então reparei que a colherinha ostentava uma pedra colorida na ponta, de novo como as da minha infância. E por um momento fiz dela uma madeleine para escapar dali.

Mas sua voz, como uma faca, rasgou meu devaneio e me trouxe de volta. “Eu só tive certeza quando bateram aqui, nessa porta”, e apontou para a entrada da sua casa, “me oferecendo dinheiro pra assinar um papel em que eu abria mão de entrar na justiça contra a firma.” Você assinou?, interrompi, numa ansiedade errada. Ele me olhou, e pela primeira vez vi ali o ódio. Era tão escuro que me mexi, como se não encontrasse mais posição na cadeira. Mais tarde me diriam que os olhos dele eram azuis, e eu não acreditei. Eram, me garantiram, mas não foi o que eu vi. Não havia nenhum céu naquele olhar, só inferno.

A mulher botou a mão no joelho dele, como se para apaziguá-lo. De novo, ele pareceu não perceber. Em vez disso, arrancou a caneta da minha mão num golpe rápido e, empunhando-a, disse. “Não. E nunca vou assinar. Nem nunca vou fazer acordo. Eles vão ter de reconhecer que nos mataram, a Justiça vai obrigar eles a reconhecer o que fizeram com a gente. Eu vou morrer, mas o mundo inteiro vai saber que eles  são assassinos.”

Sem esperar um segundo para que ele retomasse o fôlego, eu atravessei. “E se não houver justiça?” Eu sabia que estava sendo cruel, que aquele espasmo era sua máxima demonstração de potência, era sua derradeira tentativa de morrer como um homem. Mas eu precisava fazer a pergunta, porque eu sabia que não haveria justiça. Não na vida dele, pelo menos. Talvez nunca. Eu lembrava-me da sentença do juiz a um operário que pedia uma indenização pelo pulmão perdido por uma doença do amianto. E o juiz sentenciara: é possível viver  com um pulmão só.
Mais tarde eu me daria conta que deveria ter me calado. Que ele também sabia que seria derrotado, mas que justiça era toda a esperança que ele podia ter e que eu não tinha o direito de fazer qualquer gesto que pudesse abalar uma ilusão tão frágil. Mas eu ainda não envelhecera o suficiente para tocar a delicadeza de uma vida humana perto da morte. Mesmo assim, ele pareceu não me escutar. Seu peito rugia com o som e a fúria de um texto de Shakespeare.

Ele se levantou, uma das xícaras caiu no chão, como se fosse em câmera lenta. Espatifou-se. E ele ainda assim não escutava. “Isso tudo aqui é amianto. Minha casa é amianto. Eles me deram amianto pra misturar no cimento, pra fazer as paredes e o piso do quintal. Tem amianto no meu telhado, é de amianto a minha caixa d’água. Eles me deram e eu agradeci! E, quer saber, eu não tenho vergonha de dizer. Até minhas cuecas eram de sacos de amianto, tingidos de azul.”

Enquanto ele falava sua face se contorcia,  e eu reparei pela primeira vez que as maçãs do seu rosto eram encovadas e todo ele era coberto por um branco acinzentado. Um homem-esqueleto coberto por uma pele fina, quase transparente. “Eu levei meus filhos pra brincar na poeira cinzenta, eles achavam bonito. Era um dia feliz, a gente não sabia. E eu talvez tenha condenado meus filhos à morte. Eu. Os meus filhos. Mas eu não sabia”, e seus olhos escuros pela primeira vez boiaram em água salgada. Mas ele não parou, sua fala já era rio, correnteza. “Minha mulher passou a vida lavando no tanque a minha roupa empapada de amianto, minha mulher pode ser a próxima. Eu sou um homem condenado que condenei a minha família, você entende isso?” Eu entendia, mas não alcançava. Não poderia jamais alcançar. “E pra eles pode ser pior ainda, pode ser o câncer do amianto, como é o nome?” Mesotelioma, eu falei sussurrando, como se a doença, terrível, pudesse ganhar forma e se materializar entre nós.

Lembrei-me de Romana Blasotti Pavesi, a velha mulher de Casale Monferrato, a cidade italiana contaminada pelo amianto, que perdeu o marido e a filha de mesotelioma, a menina que um dia tinham levado para ver como era bonito o redemoinho da poeira. Romana, que ainda perdeu a irmã, uma prima e um sobrinho de mesotelioma. Romana que vivia sozinha num apartamento povoado apenas por bibelôs e lembranças e que às vezes pegava uma caixa do armário e dela retirava uma longa trança de vários tons de vermelho. A trança da filha. E a acariciava em sua dor sem nome.

T. já voltara a se sentar. Pensei que ele retornaria para aquele lugar entre o fora e o dentro, mas não. Ele mais uma vez pegou a caneta da minha mão, desta vez com suavidade, sem que eu esboçasse qualquer resistência. Olhou para ela e, por um momento, pensei que fosse quebrá-la. Mas T. apenas me devolveu a caneta, num gesto quase solene, como se só agora me autorizasse. E disse: “Escreva aí”.

Consertei minha postura, num gesto instintivo. E ele declarou, pronunciando cada sílaba com seu olhar escuro fixado em mim:

– Eu sou de amianto.

E botou a mão no peito. Sua mulher agora chorava um choro baixinho, enquanto recolhia os cacos da xícara, suas pequenas flores espatifadas. Nem as flores mortas escapavam de morrer naquela casa. Eu aquiesci com a cabeça, muda. A coisa, a coisa dentro dele. Eu conhecia a asbestose, eu a estudara. A fibra era aspirada, instalava-se no pulmão, de onde não poderia ser arrancada. Instalava-se, não. Ela fincava-se, produzindo uma lesão. O corpo reagia para curar a si mesmo. Mas a fibra continuava fazendo ferida. E o corpo continuava tentando se curar. Com o tempo, os anos, o pulmão convertia-se numa cicatriz e já não conseguia cumprir seu destino, não era mais capaz de inspirar e expirar. Lenta e progressivamente, era isso o que acontecia dentro do homem diante de mim, num processo impossível de deter. T. estava se aproximando do momento em que o pulmão seria ele mesmo asfixiado, manietado pelo tecido cicatricial. Pulmão de pedra, era como chamavam. T. então morreria em terror, o cérebro ordenando puxar o ar, sem que o pulmão pudesse se mover. E tudo acabaria.

Era para eu ter me calado, pedido licença e ido embora. Mas eu não sabia como ir embora, e desde então nunca mais soube. De algum modo eu também estava presa e desesperada por encobrir o som daquele pulmão moribundo. Então cometi o imperdoável. Repeti a pergunta que nunca deveria ter sido feita. Errei duas vezes. “E se não houver justiça?” Ele pousou em mim um olhar comprido e vago, como se não tivesse compreendido a pergunta. Sua mulher interrompeu, tentando nos salvar. “Você quer um café fresquinho?”, e tentou um sorriso.  Eu quase a abracei. “Faço num instantinho.” E levantou-se, carregando o jardim  no vestido, nos deixando sós e áridos.

Ele voltou a botar os olhos em mim, e agora seu olhar era apenas triste. E sua tristeza me doeu mais do que seu ódio. Abri a boca para fazer qualquer outra pergunta, mesmo que fosse para comentar o tempo, se ia chover ou não, mas ele fez um gesto de cale-se com a mão. E disse: “Se não houver justiça, eu não vou morrer como um homem”.

Vai morrer como o quê?, eu perguntei.

“Vou morrer como uma formiguinha.”

Eu não perguntei por que uma formiga. Ele estava além das palavras. Dezenas de quilômetros depois, já na minha casa, eu continuava ouvindo o ruído. Todas as letras que escrevo aqui fracassam. Revelam apenas a impossibilidade de expressar o som da sua respiração.

O horror não se deixa dizer.

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Três anos depois.

T. completava cem dias preso a um tubo  de oxigênio. Um preposto da multinacional do amianto levou ao hospital um documento para ele assinar. Se não assinasse, sua família não receberia nem um centavo  da indenização. Se assinasse, ganharia  R$ 38 mil. “Quase o triplo do que lhe  oferecemos antes”, dizia, “o senhor vai  ganhar mais do que os seus colegas”. T.  estava agonizando. E eu me pergunto se aquilo diante dele, vestido de terno e gravata, estendendo um papel e uma caneta, escutava o peito do homem. T. assinou.

O ruído cessou na noite em que o cheque  foi descontado.

 

FONTE: oversodostrabalhadores.com.br/authors/view/Eliane-Brum

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