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Risco para o desenvolvimento do mesotelioma recai sobretudo em trabalhadores da cadeia produtiva do amianto, que estão expostos à inalação de pó com as fibras

 

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A exposição ao amianto, fibra ainda amplamente utilizada na produção de telhas e outros itens da construção civil no Brasil, continua a representar um grave problema de saúde pública. Precisamos banir inteiramente o seu uso, seguindo o exemplo de mais de 50 países, inclusive alguns da América Latina, como Argentina, Chile e Uruguai.

A exposição configura um risco direto para o desenvolvimento de um tipo de câncer denominado mesotelioma, que cresce preferencialmente nas membranas serosas do corpo como pleura (reveste o pulmão), peritônio (reveste o abdômen) e o pericárdio (reveste o coração).

Os malefícios do amianto são conhecidos há décadas, e muitos países adotaram legislação restritiva. Os EUA estabeleceram limitações à exposição em 1971. No entanto, a “Journal of the American Medical Association” (Jama) publicou em abril o artigo “A exposição ao amianto ainda permanece um risco à saúde ocupacional”. A matéria destaca que continuam a ocorrer mortes por mesotelioma em indivíduos com menos de 55 anos.

Ora, o mesotelioma tem um período médio de latência (do início da exposição ao amianto até o surgimento do tumor) de 20 a 40 anos, com tempo mínimo de 11 anos. O fato de ainda ocorrerem mortes em faixas etárias inferiores a 55 anos revela que os danos relativos à exposição ao amianto permanecem, apesar da legislação de 1971. Isso significa que, ou não há nível seguro de exposição ou não há fiscalização adequada quanto ao não uso. No período de 1999 a 2015, morreram 45.221 pessoas por mesotelioma nos Estados Unidos.

No Brasil, a situação é comparável. Em 1991, a legislação proibiu a extração e utilização do amianto do tipo anfibólio, mas manteve o tipo crisotila, defendido pela indústria como menos nocivo. Porém, dados recentes oriundos do Sistema de Informações sobre Mortalidade revelam que, em 2015, 10% das mortes por mesotelioma ocorreram em indivíduos abaixo dos 50 anos. Ou seja, alguns destes indivíduos foram provavelmente expostos à fibra após 1991, quando havia produção e consumo apenas do amianto tipo crisotila.

Deve-se ressaltar também que a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc, em inglês) classifica todas as fibras de amianto como cancerígenas.

O Brasil é um grande produtor, consumidor e exportador de amianto. No mercado interno, a indústria usa a fibra para fabricar telhas, caixas d’água, chapas e tubos. O risco para o desenvolvimento do mesotelioma recai principalmente sobre os trabalhadores da cadeia produtiva do amianto, que estão expostos à inalação de pó com as fibras, mas a abrangência da exposição tem aumentado com o descarte inapropriado de resíduos.

Diferentes atores sociais podem contribuir para a diminuição da ocorrência e mortes por mesotelioma. Para a população, a orientação é que não utilize produtos com amianto em obras. Para os sindicatos, recomenda-se uma vigilância ativa dos ambientes de trabalho. Mas a grande contribuição deve vir dos legisladores, que podem tomar a importante decisão de banir todas as formas de amianto no Brasil.

Ubirani Otero é chefe da Unidade de Câncer Ocupacional do Instiuto Nacional do Câncer (Inca) e Ana Cristina Pinho é diretora-geral do Inca

 

Fonte: O GLOBO

   
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