São Paulo - O
Dia Internacional em Memória dos Trabalhadores
Vitimados em Acidentes do Trabalho, celebrado
nesta quinta-feira (28), será marcado no Brasil
pela realização do Tribunal do Amianto. O evento,
de caráter simbólico, será realizado na Faculdade
de Direito da Universidade São Paulo (USP) e
contará com os mesmos atores de um julgamento
real: promotor (acusação), defesa, corpo de
jurados e juiz. O banco dos réus será ocupado pelo
amianto, um material de múltiplas utilidades na
indústria e presente em 70% dos domicílios
brasileiros, mas com um grave problema: tem um
alto potencial cancerígeno.
O evento,
que
conta com o apoio de 65 entidades da sociedade
civil, está sendo organizado pelo Departamento
de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito da
USP, a Associação dos Advogados Trabalhistas de
São Paulo, o Sindicato dos Advogados do Estado de
São Paulo, a Associação Brasileira dos Advogados
Trabalhistas, a Associação Latino-americana de
Advogados Trabalhistas (Alal), a Associação
Luso-brasileira de Juristas do Trabalho e o
Movimento 28 de Abril.
Segundo o advogado
João José Sady, da Associação Latino-americana de
Advogados Trabalhistas (Alal) e um dos
organizadores do evento, o Tribunal vai discutir a
proibição total do produto no Brasil. Desde 1995,
o amianto foi parcialmente banido com a Lei
9.055/95. Esse banimento parcial significa que foi
proibida a utilização de um dos dois tipos de
amianto, o anfibólico, enquanto o uso do outro
tipo, crisotila, continuou liberado.
Material incombustível, as fibras do
amianto podem ser fiadas em tecidos que suportam
altas temperaturas, ou em outras situações que
pedem materiais de alta resistência. Porém, é
cancerígeno e provoca várias doenças graves nos
seres humanos. A contaminação se dá pelo ar que se
respira ou pela ingestão de água ou alimentos que
contenham essas fibras. Os mecanismos naturais de
defesa e os tratamentos médicos não conseguem
eliminá-lo e o mineral fica para sempre no
organismo, podendo causar doenças incuráveis, que
matam lentamente, por asfixia ou por tumores
malignos muito agressivos e de difícil tratamento.
Através da contaminação pelo ar, os males
causados pelo amianto se espalham com facilidade,
atingindo não só os trabalhadores na produção do
material, que têm contato direto, mas também seus
familiares, os vizinhos às fábricas e o consumidor
que adquire produtos à base de amianto ou que se
exponha à poeira liberada por este mineral.
Presença no
mercado
Aproximadamente 3.000 produtos
contêm amianto. Entre eles estão as caixas
d‘água e telhas de cimento-amianto
(conhecidas popularmente por Brasilit ou
Eternit), lonas e pastilhas de freios para carros,
ônibus, caminhões, tecidos e mantas antichamas,
tecidos para isolamento térmico, pisos vinílicos
(tipo Paviflex), papelões hidráulicos, juntas
automotivas, tintas e massas retardadoras de fogo
e plásticos reforçados.
Diversos
países, como Itália, França, Suíça, Alemanha,
Inglaterra, Áustria, Holanda, Suécia, Austrália e
Japão decidiram, há 20 anos, proibir o uso do
amianto, em qualquer de seus tipos e formas, por
entenderem não haver forma segura de controlar os
seus riscos e de se evitar a contaminação humana e
ambiental. Sady conta que, quando a França proibiu
o uso do amianto, o Canadá, que é o maior produtor
mundial de amianto, entrou com um processo contra
ela na Organização Mundial de Comércio (OMC), que
acabou perdendo.
Segundo
o advogado, a questão é extremamente complicada no
Brasil, especialmente porque somos produtores de
amianto. As empresas que continuam trabalhando com
essa matéria-prima se justificam com o argumento
de que o amianto “ruim”, que faz mal a saúde a ao
meio ambiente, é o anfibólico, que já foi
proibido. Segundo o Instituto Crisotílico, formado
pelas indústrias que trabalham com amianto, ainda
não foi provado o elemento cancerígeno do amianto
crisotílico, que seria, então, um amianto “bom”,
que possui as vantagens do material e não causam
os males a ele atribuídos. Não é essa, no entanto,
a visão da Organização Mundial de Saúde, que
identifica o amianto crisotílico também como
cancerígeno.
Para
Sady, essa é justamente a questão que se coloca, e
é isso que o Tribunal deve discutir. Inclusive, o
evento pode trazer informações substanciais que
ajudem o governo a embasar sua posição sobre o
amianto, já que a Comissão Interministerial do
Amianto deve dar um parecer ao governo
federal sobre a proposta de banimento total do
amianto nos próximos dias. Aliás, deveria tê-lo
feito até o último dia 14.
Ele
acredita que o governo brasileiro está em um
momento de contrapé, já que, conforme se observa
em entrevistas, a Comissão Interministerial está
dividida. Segundo Sady, o Ministério do Trabalho
tem uma posição pelo banimento total do amianto,
enquanto o Ministério da Indústria e Comércio
defende o oposto. “Há uma queda de braço dentro do
governo” afirma Sady, que acredita que o Tribunal
pode ajudar nesse processo.
Para
Fernanda Giannasi, engenheira técnica do
Ministério Público do Trabalho e fundadora
da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto
(Abrea), não há dúvida científica com relação aos
males do amianto, e o seu não banimento se deve ao
fato de estarem prevalecendo os interesses
econômicos, em detrimento da saúde da população.
Aliás, Fernanda inclusive rebate os argumentos
econômicos - no sentido de ser o amianto uma
matéria-prima barata, que permite construir mais
casas populares etc.-, que para ela são uma grande
armadilha. Afinal, economiza-se na matéria prima,
mas depois se gasta com os doentes, em tratamento
e indenizações.
Fernanda
lembra, ainda, que os doentes são tratados pelo
SUS. Isso significa que quem arca com seus gastos,
que são altíssimos (o fim de vida das vítimas
costuma requerer de 2 a 3 meses de internação na
UTI) é a sociedade, o contribuinte. “Ou seja, mais
uma vez os prejuízos são socializados, enquanto os
lucros ficam apenas com as empresas produtoras”,
afirma.
A
engenheira acredita que o Tribunal tem o papel
importante de trazer novos atores para esse
debate, como advogados, estudantes etc. Sua
expectativa é que isso também venha a causar um
mal-estar junto ao governo, que o faça adotar
políticas para apressar o banimento.
“Em
28 de março do ano passado o governo anunciou uma
série de ações em defesa da saúde pública,
afirmando que a decisão pelo banimento já tinha
sido tomada”, conta Fernanda. Um ano depois, não
só nada foi feito como os últimos anúncios do
governo mostram que há um impasse. Segundo ela, o
mercado tem sido mais sensível a esse apelo do que
os governantes, e tem sido, portanto, mais
eficiente do que o governo no processo de
banimento do amianto.
“Ainda
mais com a bancada do amianto no Congresso,
liderada por Ronaldo Caiado (GO)”, afirma. Segundo
Fernanda, ele inclusive já declarou que recebe
dinheiro de empresas de amianto para suas
campanhas. “Não é à toa que seu relatório sobre um
projeto de lei sobre o amianto foi contrário ao
seu banimento total”, observa.
Por
isso a fundadora da Abrea acredita na importância
de se adotar essa outra tática, de sensibilizar a
população, consumidora, para essa questão.
“Estamos saindo do da academia, dos sindicatos,
das associações de vítimas do amianto, e
dialogando com quem compra o produto”, afirma.
Para ela, essa forma de banir o amianto parece ser
muito mais eficiente hoje do que a via
governamental. Mas completa: “é lamentável que
quem vai definir essa questão do amianto seja o
mercado, e não uma decisão política pela saúde,
pelo maio-ambiente e pela dignidade humana. Isso é
frustrante”.
O
Tribunal
O
Tribunal do Amianto acontecerá às 18 horas, nesta
quinta (28), no Salão Nobre da Faculdade de
Direito da USP, e avaliará os efeitos ambientais
do amianto, dando um parecer sobre a hipótese de
banimento de todas as formas deste material. O
Tribunal será presidido pelo Professor Marcos
Orione, do Departamento de Direito do Trabalho da
Faculdade de Direito da USP, e a acusação será
feita pelo Dr. Luiz Carlos Moro, presidente da
Alal. O Instituto Crisotila, que
congrega as empresas produtoras de
amianto,
foi formalmente convidado para fazer a
defesa do produto.
Entre
os diversos depoimentos técnicos confirmados,
destacam-se o da professora Fernanda Giannasi e o
do professor Barry Castleman, especialista em
doenças do amianto que virá dos EUA especialmente
para trazer seu parecer.
Com
informações do site da Associação Brasileira dos
Expostos ao Amianto
(http://www.abrea.com.br/inicial.html)